Pesos
e medidas... ou reflexão sobre a cocada de Dindinha
Uma receita culinária baseia-se, primordialmente, nestas duas forças: pesos e medidas (constam aí volume, massa, profundidade, quantidade, etc.). Pesos e medidas, contudo, pertencem ao reino da relatividade. É fácil resumir uma receita a tantos gramas disto para determinada quantidade de mililitros daquilo. Há ciência, obviamente, por trás dessa composição químico-biológica das receitas medidas criteriosamente. Mas também o há na sabedoria das medidas dos sentidos do cozinhar.
Há poucos anos, para finalidade acadêmica, meu filho precisou pedir uma receita de memória para o membro mais velho da família. Sem dúvida, seria Dindinha. A tia-bisavó dele, que completou, neste sábado, 107 anos, ainda lúcida, com suas limitações de fala e mobilidade.
Dindinha lembrava-se da receita de cocada, a qual elaborava com suas irmãs em Aracaju (SE), pelo menos desde os 1940. A cocada de Dindinha reluzia como mármore rústico sobre a bancada, enquanto resfriava, após a feitura. Não poderia solidificar-se a ponto de corte se não esperássemos. As vezes em que infingi a regra acabei com a língua queimada, boas chineladas na bunda e o cortante olhar azedo de Dindinha quando me aproximava da cozinha.
Não consigo lembrar da última cocada de Dindinha. Deve ter sido algo há mais de 20 anos, antes de ela trocar a bacia óssea por juntas de titânio e do avanço da artrose nos dedos. As melhores memórias da cocada, contudo, ainda residiam nos frames da infância, na gaveta ao lado das chineladas.
Pois meu filho foi lá entrevistar Dindinha. A tarefa era muito fácil. Afinal, ela lembrava-se muito bem.
— Rale o coco seco. Leve ao fogo com o quanto baste de açúcar para o mesmo tanto de água. Cozinhe até dar o ponto de fio, transfira para a bancada de pedra, modele em um retângulo e deixe resfriar até pegar a textura de corte.
Foi mais ou menos essa a instrução para a receita da cocada perfeita.
Pesos e medidas?
Não havia copo de leite, colher de sal, medidor de açúcar.
As medidas não se conservavam no lado narrativo das memórias, mas nas percepções dos sentidos. Didinha só conseguiria instruir a receita tão perfeitamente como a própria cocada, se estivesse com a barriga no fogão. E ela não o podia fazer.
O resultado foi desastroso. No final, recorremos a uma receita da internet. Aí já tinha leite condensado, glucose, goma xantana e sei lá mais o quê. Desastre maior.
Essa ilustração chega ao Coffice nesta manhã como espelho da grande dissonância cognitiva que aflige nosso tempo: pesos e medidas se tornaram questão de perspectiva e não caminhos diferentes a se perseguir, tal qual uma receita medida milimetricamente ou aquela indefectível advinda apenas da memória sapiciente de quem o faz.
Olhe para seu currículo, ou bio da rede social (vá lá) e depois para sua vida. Sob o jugo do algoritmo, perseguimos criar a receita perfeita para ilustrar nossas vidas públicas, publicizadas via redes sociais. Para isso, podemos atender metodicamente as tantas estratégias a se desvendar pelo comportamento de cada rede ou seguir nosso próprio tino.
Mas há uma diferença muito grande entre receituário afetivo, culinário, familiar do exigido para o restaurante gastronômico. O primeiro deve honrar os sabores da memória afetiva, portanto, exige ser ensinado e transferido geracionalmente, além de ser colocado à prova na mesa da matriarca. O segundo deve atender a padrões técnicos do próprio negócio, ao tempo em que se compromete com consistência para entrega em escala.
Em ambos, a ideia de pesos e medidas redundam em aprendizado (simples ou complexo), repetição e aritmética.
Na vida, o jogo é outro. Podemos usar diferentes pesos e medidas, pois o campo de disputa do pertencimento e do posicionamento evoca tanto o pior quanto o melhor de nós.
Ah, se ela fosse apenas uma receita! Mas seus pesos e medidas advém de uma escala desequilibrada, em que o sucesso de tal receita não poderá ser medido pela acuidade ou destreza de quem o elabora.
Contudo, o seu feed de informação nas redes sociais estão povoados de gurus — ou apenas gente que precisa vender o seu mesmo — prometendo a receita perfeita em fragmentos de vidas: há os receituários da vida do trabalho e do ganho; os do corpo e mente sadios; os da proeza e habilidade artística; os das soluções domésticas…
Não há balança para medir este ou aquele sucesso no prisma perspectivo regido pela ordem da hipermodernidade — aqui o termo do Lipovetsky me soa mais oportuno, pois traz um diagnóstico muito preciso para descrever a sociedade do ainda novo século: “a angústia da liberdade de escolha”.
É esta angústia, hoje, sobre a qual escrevemos a nossa lista de compras e de materiais necessários para fazer a nossa receita. Nunca tivemos tanta autonomia para cozinhar esta cocada. E nem tantas possibilidades de desandar a calda.



