Pavio
curto e os sinais da incivilidade
“Progresso, não civilização”.
Esta frase conclui um raciocínio do jornalista Julio Camba, prolífico escritor espanhol de escrita satírica, humor afiado e autor de algumas pensatas sobre o universo da alimentação.
Esta citação foi um “apud” no clássico “História da Alimentação no Brasil”, o basilar, porém, hoje, longínquo e um tanto controverso compilado de extratos socioantropológicos de Câmara Cascudo.
O contexto era de que a humanidade “evoluiu” tal qual o animal selvagem: retirados do seu fértil habitat com finalidade de gerar entretenimento por trás das grades de um zoológico.
E uma das pistas deste “progresso” era justamente a rotina de repasto à qual os animais são submetidos. Eis que nos acomodamos tanto a esses horários de refeição (café, almoço, janta) que nos assemelhamos aos bichos encarcerados, dependentes do relógio bater a hora de comer.
Isso não é lastro de civilização necessariamente.
Em pleno 2025, muitos dos nossos hábitos dignos de reconhecimento do progresso urbano da sociedade (frequentar restaurantes em busca do prazer estético da experiência, por exemplo) camuflam — talvez nem tanto — a incivilizadade das relações na cozinha e até à mesa.
Relações essencialmente comerciais, ou de trabalho (patrão-empregado/empregado-empregado) ou de serviço prestado (patrão-empregado-cliente).
Poucas semanas atrás, o chef Alex Atala voltou a falar besteira em reality show gastronômico — foram muitas, mas esta segue à fala improvisada de tons sexistas direcionada a Helena Rizzo, durante o Masterchef um ou dois anos atrás.
Desta vez ele colocou (a Globo colocou, né?) aquela pitada de schadenfreude típica dos realities gastronômicos, cuja potência está em dar um corpo estético à cultura tóxica dos bastidores da cozinha, transformando-a não no que é (tóxico) mas em uma relação desejável como sendo parte de um processo de aperfeiçoamento, que o qual não se chegaria a um “alto nível”, a uma “alta gastronomia”.
É o método do pavio curto ainda funcionando em 2025 para o que deveria se esperar dos grandes profissionais de “alta gastronomia”.
Até Gordon Ramsay, o chef praticamente sem pavio, entrou o ano mais brando, menos verborrágico na versão original deste programa.
Claro, continua fomentando patacoadas vexatórias, com o cúmulo de o novo formato usar como referência “O Poço”, filme de Galder Gaztelu-Urrutia.
Por sua vez, a produção espanhola usa a escassez para elaborar um comentário social por meio do horror (embora nada lá tão sofisticado assim) enquanto o “Chef de Alto Nível” considerou uma boa ideia usar essa referência para extrair a sensação oposta.
Ok, mas Ramsay está comedido, ao menos em relação ao que fora. Neste ano ele também reeditou o seu “Pesadelo na Cozinha”, agora com uma proposta bem mais Luciano Huckística. “Hell and Back” concentra o exploitation da vida dos empresários fracassados ou em processo de falência do ramo de restaurantes em 24 horas.
E, de volta ao Brasil, tá lá Alex Atala forçando a barra desse personagem que ele nunca foi (midiaticamente ao menos era mais conhecido pela fala gaguejosa, a onipresença como jurado convidado dos principais programas e pelos comerciais de banco e de caldo ultraprocessado).
Agora quis bancar o papel do Ramsay. Palavrão, humilhação desproporcional e cara de bravo. O que não é coisa particularmente dele, vale frisar. Há todo um mecanismo de produção por trás. E isso diz menos sobre comida e mais sobre a magia dos dispositivos comunicacionais nos orienta a ver e a sentir.
Um detalhe curioso. Tudo isso para um prato que vai pro menu do Outback! O constrangimento alimentando a piada. Precisa de um chef de alto nível que não esqueça a maionese para fomentar o cardápio de uma rede notória pela mediocridade culinária, pela inconsistência nos preparos e… pela maionese péssima (talvez melhor fosse tê-la esquecido mesmo).
O quanto mais vejo essa profusão de encenações dos modos da “alta gastronomia”, mais baixa a percepção que nutro acerca do que motiva hoje esse público consumidor de imagens (binge-tasting, como teorizei na minha tese) ao planejar uma “experiência no restaurante”.
Seria esse o retrato do perfeccionismo? E o sendo, você realmente acha isso apetitoso? Ou apenas somos como os tais animais no zoológico, míopes, preguiçosos e famintos?
A discussão certamente é mais longa do que isso, mas imagino ser importante lançar esta luz aos nossos novos hábitos de consumo, motivados mais pela fome de experiência e pela impaciência em fruí-la do que simplesmente sermos civilizados o suficiente para entender que nosso interlocutor não é um sistema, é apenas o nosso próximo.
Bora começar a semana com a cabeça fria.



Sabe, todas as vezes em que distribuo as marmitas pelas ruas, em penso: "eles estão livres, eu? não mesmo"...