Desinstagramar-se
é preciso
Foi dificil resistir às tentações de compartilhar on-line alguns momentos íntimos dessas férias.
Em tempo: o Coffice sempre entra de férias, pois incentivamos uma cultura do equilíbrio, no qual colocamos o trabalho em torno da vida, não o contrário.
A nova gelateria da cidade, o restaurante baiano que abriu recentemente, a nova presepada praticada pelo cachorro, a engenhosa invenção do filho, o “unboxing” do presente natalino, os passeios, os livros lidos, os filmes assistidos e ranqueados pouco diligentemente no Letterboxd...
Foi um mês vivido sem registro online (ou quase). Pessoal ou profissionalmente, a rigor uma distinção quase insignificante.
O resultado foram 60 ou 70 seguidores a menos no Instagram outros 2 ou 3 assinantes a menos na newsletter, uma saúde mental estabilizada, tempo de qualidade com a família e projetos sonhados ganhando forma em papel e em editais. Tempo de estudar, de ler, ou seja, de ficar sem exposição. Saldo bem positivo, avalio.
A vida realmente parece mais bela e justa do lado de fora da barra de rolagem. Passa mais devagar, tem cheiros, sabores. É um mundo sensorial completo este nosso plano físico.
Neste tempo refleti em dois textos. Um é o chamado do centenário filósofo Edgar Morin ainda muitíssimo lúcido publicado sob alcunha panfletária: “Despertemos!” . O segundo havida lido rapidamente para finalidade de pesquisa apenas há mais de um ano. Agora fiz jus a ele e o li com desprendimento: “Sobre a inatividade ou vita contemplativa”, um dos mais recentes do Byung-Chul Han (o autor mais conhecido pela “Sociedade do cansaço”, fartamente citado por aqui).
Começando pelo segundo, inspirado pelos movimentos do flâneur de Baudelaire, comentários de Walter Benjamin e de seu principal apoio teórico (Heiddegger + Nietzsche), Han, sempre absolutamente crítico ao neoliberalismo, aponta certeiramente como até os nossos momentos de descanso, de lazer, de férias, que seja, são tomados pelo sistema do capital como um ativo de produtividade.
Repare, segundo ele, a gente trabalha o dia inteiro e vai para casa descansar com o objetivo de estar preparado para trabalhar novamente. É o famoso causo popular, contado pelos cordelistas e até já encenado pelos Trapalhões:
— Pra quê trabalhar?
— Para ganhar dinheiro.
— Pra quê ganhar dinheiro?
— Ora, para poder se aposentar.
— Pra quê me aposentar?
— Para poder descansar.
E o sabido vagabundo estirado na rede olha para o cidadão que o exortava e conclui:
— Então já cheguei lá antes de você.
Na radical ilustração de Han, apoiado neste conceito por Nietzsche, a última fronteira livre do domínio do capital nos nossos momentos de inatividade residem no sono e no sonho. São as instâncias preservadas da captura da atenção em nome da produtividade e do consumo.
Até a literatura — embora livro não tenha publi interrompendo no meio — já foi cooptada pelo mundo da produtividade. Listas de quantos livros li, quais lerei, a competição por quem lê mais, ou melhor, para, ao final, se tornar um post no TikTok, cujo propósito redunda no consumo e na produtividade. Repare, não é uma crítica ao consumo de literatura, mas ao sistema em que até o livro e a cultura literária estão inseridos.
Espantei-me com esta ideia de que o capital poderia envolver nossos momentos de desconexão. Lembrei-me do episódio “Common people”, da série “Balck mirror”, em que a própria vida da personagem advém de um plano de assinatura com seu próprio corpo servindo de suporte comunicacional para transmissão de anunciantes.
O espírito da inatividade da filosofia europeia se traduz em contemplação. Um ato praticado pelos filósofos da Antiguidade Clássica, livre do compromisso de se produzir qual quer coisa, embora seja justamente o processo contemplativo que irá permitir a ventilação de ideias, de autoconhecimento e de apreciação do mundo visível e invisível.
Excertos bíblicos e de religiões do extremo oriente caminham para uma proposta semelhante, ao aludir à necessidade da meditação e do silêncio. Na filosofia contracolonial do mestre quilombola Antônio Bispo, a inatividade ou a vida contemplativa significam apenas vida.
Acadêmicos, os europeus (sim, Han é coreano, mas seu pensamento filosófico é eurocentrado) dão uma volta enorme por tradições burguesas, inventários gregos e correlações poéticas para teorizar algo que Nêgo Bispo chamou simplesmente de vadiagem. O vadiar como método de viver coloca o labor (o trabalho necessário para a vida em comunidade) em outra perspectiva: o viver importa mais do que o trabalhar.
E é aqui onde convido a ideia central de Morin para que “despertemos”.
Este chamado ao despertar é justamente ao despertar das consciências, do pensamento de mentes artesanais, interessadas na manutenção da vida prática também, do viver, saborear, gozar, sorrir em contato com a própria natureza do existir sem mediações. Uma volta à humanidade mesmo em temos de transumanismo (que seria esse atravessamento das tecnologias na forma como vivemos).
Como o ato de sonhar.
Não há suporte mediador do sonho. Não há controle narrativo ou escolhas. O inconsciente se liberta do roteiro, não se apega a reviravoltas de enredo, não necessita do sentido literal.
O sonho não é instagramável.
Desinstagramar-se é preciso.
Para viver sem plateia e realizar sem aplausos.
Edição escrita acompanhada de um café arábica da variedade Rubi, do Sítio Guandu, da Serra da Matiqueira (MG), de processamento natural, torrado por Pilotis Cafés Especiais e extraído numa V60.




"É um mundo sensorial completo este nosso plano físico." Poético, filosófico, profundo. Baita texto!!!!!!
Texto lindo! Obrigada, guilherme!