Apressado
come mal
Afinal, há muita coisa crua boa demais. Salada, molho à campanha, fruta, aquele peixe do ceviche ou do sushi, a carne de onça ou o afrancesado tartar… A questão do apressado tecnicamente nunca foi o risco de se comer cru (por falta de esperar o cozimento), pois para todos os preparos exige-se tempo. Inclusive para o alimento cru.
O apressado come é mal.
Ó, tempo-rei, que anuncia o plantio e depois a ceifa. Como diria o poeta da boemia tijucana Marcos Bonder, vulgo Bond Buteco: “Devagar também é velocidade.” O problema está na pressa.
A crise instaurada nas nossas relações e, sobretudo, nos novos modos de comer e de consumir, com o raiar do pós-Segunda Guerra Mundial, promoveu a máxima da pressa, pois devedora da Segunda Revolução Industrial. Abriu-se o flanco para os ultraprocessados e para as redes de fast-food.
O final do século 20 e o início do 21 reuniram no combo consumo-tecnologia-comunicação um grande paradoxo das novas relações.
Surgem movimentos “devagar” (sempre recorrendo ao anglicismo “slow"). Slow food confrontava o fast-food, o slow fashion propunha uma nova ética na contramão da fast fashion das grandes lojas de departamento e o slow communication denunciava, dentre outras coisas, “a tirania do e-mail”.
É até estranho olhar para esses movimentos nascidos entre 10 e 40 anos hoje, quando o slow food compartilha da mesma lógica comunicacional do fast food, brechós promovem festivais de compras e o e-mail… ora, sentimos até saudades de tal tirania hoje enclausurados por app de mensagens e inboxes de redes sociais.
O saudoso professor Ciro Marcondes Fillho publicou um livro muitíssimo inspirador em meados da primeira década de 2000, cujo principal atributo segue o mesmo interesse de lançar-se na contramão da rapidez: “Perca tempo — é no lento que a vida acontece”.
Ali ele aponta para o problema que se agravaria 20 anos depois deste escrito com o desgaste promovido pela “ilusão maquínica”, o que vamos entender como uma vi~soa de mundo única da pressa.
“Perder tempo significa perder um pouco mais de tempo com as coisas. Significa: respeite o próprio tempo, a temporalidade das próprias coisas, submeta-se ao tempo delas, seja objeto delas, e não seu sujeito”
Ciro Marcondes Filho, 2005, p. 85
No mundo dos cafés especiais, a pressa é uma inimiga (que seja da perfeição, não é pra tanto também). Não se deve meter o pó e coar em uma única “jarrada” de água quente. É preciso medir a temperatura, pesar os grãos e o líquido. A depender do método, exige-se a espera do próprio cliente à mesa para extrair sua prensa francesa, por exemplo. Outros métodos simplesmente caíram no esquecimento comercial pela burocracia, caso do sifão.
E neste próprio universo, os especialistas também trabalham sob a lógica da aceleração da vida e dos processos. Acredita que já existe café especial artesanal, com notas disso e daquilo no modelo liofilizado (solúvel)? É a nova possibilidade após as cápsulas e os “drip coffees” (sachês individuais e descartáveis para se coar).
O problema da pressa é que sua maior inimizade é com os ritos. E a comensalidade exige ritualidade. Com ritos, não restrinjo às práticas religiosas. Refiro-me ao mero momento compartilhado após o almoço na firma, quando o pavoroso café de licitação é renovado na jarra — péssimo, porém, ritualístico. Esperou-se aquele momento, testemunhou-se uma comunhão de colegas.
Começar a trabalhar, continuar trabalhando, fingir que trabalha… na xícara, no copinho de plástico 50ml, no biodegradável, no isopor, no copo Stanley ou numa casinha de sapê requer cada suporte com seu rito, cada rito com sua missão de fazer atravessar o dia. Com mais ou menos pressa.
Porém, quanto mais pressa, menos rito. Quanto menos rito, menos conexão. Não precisamos julgar o suporte ou condenar a tecnologia ou o maquinário que favorece a remissão do tempo. Mas o café, como a vida, simplesmente pede mais de sua atenção.
Esta edição foi escrita acompanhada de um drip coffee do Mercado do Café, pois fora acometida da pressa.




Foi especial ler esse texto.
tema perfeito para essa segunda, assim como o café as pressas que tomei.